GUERRA GUARANÍTICA

GUERRA GUARANÍTICA
A RESISTÊNCIA

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sexta-feira, 7 de maio de 2010

A LENDA EM POESIA

 INSCRIÇÃO  NA SEPULTURA


+ Em Nome de Todos os Santos +

No ano de Cristo Jesus de 1756

a 7 de fevereiro

morreu combatendo

o grande chefe guarani Tiaraiú

em um sábado santo

+ Subiu ao Céu dias antes do que +

o grande chefe da Taba do Uruguai

que morreu a 10 de fevereiro em quarta-

feira cobatendo contra um exército de

15.000 soldados.

+ Aqui enterrado +

A 4 de março

mandou levantar-lhe esta cruz

o padre D. Miguel

Descansa em paz

+

"Conforme a homenagem prestada pelos Jesuítas, na inscrição e na denominação do arroio, e não havendo no calendário católico santo de nome Sepé, temos que concluir que as virtudes, o mérito do grande chefe índio foram forais para a sua estranha canonização, no entretanto perdurável e popularizada.



UMA POESIA CONTANDO A LENDA de JOSE SEPÉ



(Cancioneiro Guasca)



O LUNAR DE SEPÉ



Eram armas de Castela

Que vinham do mar de além;

De Portugal também vinham,

Dizendo, por nosso bem:

Mas quem faz gemer a terra...

Em nome da paz não vem!



Mandaram por serra acima

Espantar os corações;

Que os Reis Vizinhos queriam

Acabar com as Missões,

Entre espadas e mosquetes,

Entre lanças e canhões!...



Cheiravam as brancas flores

Sobre os verdes laranjais;

Trabalhava-se na folha

Que vem dos altos ervais;

Comia-se das lavouras

Da mandioca e milharais.



Ninguém a vida roubava

Do semelhante cristão,

Nem a pobreza existia

Que chorasse pelo pão;

Jesus-Cristo era contente

E dava sua benção...



Por que vinha aquele mal,

Se o pecado não havia?...

O tributo se pagava

Se o vizo-rei o pedia,

E até sangue se mandava

Na gente moça que ia...



Eram armas de Castela

Que vinham do mar de além;

De Portugal também vinham,

Dizendo, por nosso bem:

Mas quem faz gemer a terra...

Em nome da paz não vem!



Os padres da encomenda

Faziam sua missão:

Batizando as criancinhas,

E casando, por união,

Os que juntavam os corpos

Por força do coração



Dum sangue dum grão-Cacique

Nasceu um dia um menino,

Trazendo um lunar na testa,

Que era bem pequenino:

Mas era um cruzeiro feito

Como um emblema divino!...



E aprendeu as letras feitas

Pelos padres, na escrita;

E tinha por penitência

Que a sua própria figura

De dia, era igual às outras...

E diferente, em noite escura!...



Diferente em noite escura,

Pelo lunar do seu rosto,

Que se tornava visível

Apenas o sol era posto;

Assim era Tiaraiú,

Chamado Sepé, por gosto.



Eram armas de Castela

Que vinham do mar de além;

De Portugal também vinham,

Dizendo, por nosso bem:

Mas quem faz gemer a terra...

Em nome da paz não vem!



Cresceu em sabedoria

E mando dos povos seus;

Os padres o instruíram

Para o serviço de Deus,

E conhecer a defesa

Contra os males dos ateus...



Era moço e vigoroso,

E mui valente guerreiro:

Sabia mandar manobras

Ou no campo ou no terreiro;

E na cruzada dos perigos

Sempre andava de primeiro.



Das brutas escaramuças,

As artes e astimanhas

Foi o grande Languiru

Que lh'ensinou; e as façanhas,

De enredar o inimigo

Com o saber das aranhas...



E tudo isso aprendia;

E tudo já melhorava,

Sepé-Tiaraiú, chefe

Que os Sete Povos mandava,

Escutado pelos padres,

Que cada qual consultava.



Eram armas de Castela

Que vinham do mar de além;

De Portugal também vinham,

Dizendo, por nosso bem:

Mas quem faz gemer a terra...

Em nome da paz não vem!



E quando a guerra chegou

Por ordem dos Reis de além,

O lunar do moço índio

Brilhou de dia também,

Para que os povos vissem

Que Deus lhe queria bem...



Era a lomba da defesa,

Nas coxilhas de Ibagé,

Cacique muito matreiro

Que nunca mudou de fé:

Cavalo deu a ninguém...

E a ninguém deixou de a pé...



Lançaram-se cavaleiros

E infantes, com partasanas,

Contra os Tapes defensores

Do seu pomar e cabanas;

A mortandade batia,

Como ceifa de espadanas...



Couraças duras, de ferro,

Davam abrigo à vida

Dos muitos, que, assim fiados,

Cercavam um só na lida!...

Um só, que de flecha e arco,

Entra na luta perdida...



Eram armas de Castela

Que vinham do mar de além;

De Portugal também vinham,

Dizendo, por nosso bem:

Mas quem faz gemer a terra...

Em nome da paz não vem!



Os mosquetes estrondeiam

Sobre a gente ignorada,

Que, acima do seu espanto,

Tem a vida decepada...;

E colubrinas maiores

Fazem maior matinada!...



Dócil gente, não receia

As iras de Portugal:

Porque nunca houve lembrança

De haver-lhe feito algum mal:

Nunca manchara seu teto...;

Nunca comera seu sal!...



E de Castela, tampouco

Esperava tal furor;

Pois sendo seu soberano,

Respeitara seu senhor;

Já lhe dera e ouro e sangue,

E primazia e honor!...



A dor entrava nas carnes...

Na alma, a negra tristeza

Dos guerreiros de Tiaraiú,

Que pelejavam defesa,

Porque o lunar divino

Mandava aquela proeza...



Eram armas de Castela

Que vinham do mar de além;

De Portugal também vinham,

Dizendo, por nosso bem:

Mas quem faz gemer a terra...

Em nome da paz não vem!



E já rodavam ginetes

Sobre os corpos dos infantes

Das Sete Santas Missões,

Que pareciam gigantes!...

Na peleja tão sozinhos...

Na morte tão confiantes!...



Mas o lunar de Sepé

Era o rastro procurado

Pelos vassalos dos Reis,

Que o haviam condenado...

Ficando o povo vencido...

E seu haver... conquistado!



Então, Sepé foi erguido

Pela mão de Deus-Senhor,

Que lhe marcara na testa

O sinal do seu penhor!

O corpo, ficou na terra...

A alma, subiu em flor!...



E, subindo para as nuvens,

Mandou aos povos benção!

Que mandava o Deus-Senhor

Por meio do seu clarão...

E o lunar na sua testa

Tomou no céu posição...



Eram armas de Castela

Que vinham do mar de além;

De Portugal também vinham,

Dizendo, por nosso bem...

Sepé-Tiaraiú ficou santo

Amém! Amém! Amém!...