
Capoeiras, 31 de janeiro de 1908
Reverendíssimo padre Superior Geral
Recebi a sua cartinha de dezenove de dezembro passado e respondo imediatamente
Os gafanhotos continuam a destruir as plantações nas linhas onde não quiseram matá-los quando eram recém nascidos.
Aqui em Capoeiras os colonos são encorajados pelo Intendente e pelo velho padre , o qual por três semanas inteiras os acompanhou na tentativa de matá-los e também comandou os colonos nesta tarefa de manhã até o fim da tarde e conseguiram matar muitos e o trabalho é estafante. Porém não sabemos quando os saltões que sobraram fizerem as asas o que farão, porque nas linhas 6 e 7 oeste dos polacos e na linha 8 de Nova Bassano onde moram os italianos de Bergamo pois eles não quiseram participar da operação , não aceitaram nenhuma proposta e são uma imensa quantidade. Como não encontram nada para comer, os gafanhotos passam de uma linha a outra e destroem as plantações , passam todas as linhas, incluindo aquelas em que os colonos se ocuparam na tentativa de destruí-los. Reverendíssimo Superior a situação é apavorante. e se teme que haja desavenças entre os colonos que trabalharam para se livrar dos gafanhotos e os outros que não quiseram se ocupar disso, pois esta atitude de não colaborar vai trazer danos a todas as linhas. Em mais ou menos vinte dias os gafanhotos farão as asas e voarão e mesmo assim já estão destruindo plantações inteiras e os pobres colonos ficam na miséria e frustração.
A estação (verão) está em boas condições e nesse mês de janeiro chove muito e enquanto lhe escrevo foi necessário acender o lampião. São duas horas da tarde !Chuva forte com relâmpagos e trovoadas que vêm do Oeste. Uma tempestade!
O padre Jorge foi até o Turvo e não pode retornar porque o rio Prata não dá passo, Ele ficará lá naquela missão até o dia 12 de janeiro.
Outro assunto que trato aqui são as razões pelas quais eu pretendo ir à Itália: São três as principais razões: a primeira é que estou com problemas intestinais que me impossibilitam de andar a cavalo, então nem saio da sede. A segunda razão é que não estou mais sendo bem aceito nestas condições e me conhecendo não me ajudarão absolutamente com nada e a terceira é que tenho aqui muitos compatriotas e parentes , os quais me perturbam, e sempre foi assim, além do distúrbio me deixam no prejuízo. . Todos os dias recebo visitas dos pobres os quais ajudei no passado e eles continuam a vir para que os alivie das suas misérias e como se acostumaram continuam a me procurar e pedir ajuda. Eu como não sou capaz de dizer não a ninguém então as coisas não vão bem.
Outro problema é que por causa da praga dos gafanhotos vieram para cá em torno de cem indígenas .Fugiram de suas desoladas terras e as mulheres com as crianças se postam nos portões e não saem até que não se dê algo de comer. Os indígenas até trabalham, mas mesmo se houvesse trabalho não bastaria para todos. Isto até seria possível, mas os colonos também não pagam as taxas corretamente, mas a culpa não é deles, é minha porque desde o princípio fui exortado pelo padre Pietro Colbacchini a ser indulgente e compassivo. Isto criou uma situação que agora não tenho mais como mudar e a paróquia está inadimplente. Mas o que poderia eu fazer ou exigir no início de quem nada tinha? Muitos não vinham nem sequer à missa porque estavam com as roupas em farrapos , quase nus! E é por isso que a minha casa sempre foi pobre, me faltava até o necessário, eu gostava de doar aos outros. O falecido Monsenhor Scalabrini quando me enviou a este lugar me perguntou "-O que pretendes fazer na missão na qual te envio, no meio daqueles pobres colonos?" Eu respondi '- Farei o que o senhor me ordenar! Se deseja que ajude o Instituto eu porei em prática também um programa pecuniário! Ele cortou-me a palavra e me disse :"- Charitas Christi urget nos"( o amor de Cristo nos impulsiona). Eu assim fiz, mas os missionários atuais me dizem :"- você trabalhou por pouco e nada"! Eles, entretanto, tem um programa diverso , pecúnia, boas casas, mais conforto, boa comida e comodidades. Me criticam e por isso não quero mais encontrá-los nem neste Mundo e nem no outro” .Se quisermos podemos sim ajudar também o Instituto, mas sem espoliar os pobres colonos.
Em Nova Bassano já começaram a exigir mais contribuições, mas eu não gosto deste comportamento.
Sobre o Padre Jorge (Cavigiolo) eu o via chorar e mencionar o nome dos pais e dos irmãos, mas ele nada dizia . Eu pensava que ele estava com saudades e fazia boa comida para nós, com muito capricho, para agradá-lo , era uma comida feita com mãos de mestre, não escrevo para me gabar. Tudo foi em vão. Então eu exigi que ele me contasse a verdade sobre a sua tristeza e ele me falou que sua família na Itália estava passando fome, não tinham nem pão e nem polenta.... enquanto ele aqui estava bem alimentado pelo velho Barba Toni. Então eu falei a ele:"- vamos tirar esta fartura da nossa mesa, e vamos nos contentar com um alimento frugal e mandemos para os seus na Itália para que pelo menos passem o inverno! Então enviamos para a família do padre Jorge cerca de 100$ 000 mil réis , sete mil pertenciam ao padre Jorge e o restante era meu. Depois de feito isso ele está contente, trabalha animadamente, e todos estamos felizes . Ele tem mesmo um jeito especial para pedir aos fieis sem os ofender .No Turvo o pagam bem , mas neste momento, no futuro não sabemos.
Eu cedi meu quarto, minha cama, e também o meu cavalo para facilitar o trabalho missionário, providenciei para ele roupas, botas de couro, e todo o necessário . Eu sempre fui servil e pago o preço da minha servitude. Eu fui servil porque sempre providenciei as coisas que necessitava por conta própria, para a casa nunca me deram sequer um réis. A vinda do padre Jorge me custou setecentos mil réis. Providenciei quatro novas camas, comprei lençois e cobertas novas., botilhas com um bom vinho. Comprei e paguei ao padre Máximo catecismos, livros e outros objetos sacros como crucifixos os quais nada me foi presenteado e o valor foi de 234$000 mil réis.
O padre Carlo e o padre Eugênio Medicheschi foram ao campo e ao Turvo e me trouxeram 270 batismos para serem registrados, e não me deram sequer um réis. Eu não quero mais encontrá-los porque seria um encontro funesto e danoso para o pobre Barba Toni.
Para ir à Italia eu preciso de pelo menos 5 mil liras para a viagem, não posso tardar a partir , se não tiver a viagem paga morrerei . Eu sinto que não estarei mais aqui para comemorar o Jubileu. É verdade que deixo para meu coirmão todo o necessário para a continuidade da missão, e assim ele poderá também ajudar o Instituto. Depois do tratamento, caso não tenha mais forças para ir em missão, nem sei mesmo o que vou fazer. Eu não pedirei nada aos bispos , estou cansado. Penso que a missa poderei celebrar. E se não tiver como me sustentar eu pedirei esmolas. Com as necessidades que enfrentei no tempo passado , nem terei vergonha de pedir um pedaço de pão.
Eu escrevi ao padre Máximo Rinaldi para vir até aqui, mas não sei se virá.Estou em contato com o vigário de Bento Gonçalves, Padre Angelo Donato para irmos juntos à Itália, e marcamos a partida daqui para o final de março.
O trabalho na Igreja Nova continua, . A Intendência me ajudou um pouco e prometeu ajudar mais. O Delegado me prometeu que quando irá à posse do novo Presidente fará uma menção sobre esta paróquia para que recebamos alguma ajuda. Fui visitá-lo com alguns amigos e me perguntou se havia recebido alguma ajuda. Eu falei que não. Farei eu mesmo um pedido especial a ele; está ainda em Porto Alegre, veremos o que me dirá quando voltar, mas não faço muita fé nessa promessa.
Com esta minha longa carta penso que lhes deixei cansado, mas a meu juízo penso que o Superior Geral deve saber como estão as coisas aqui, me perdoe se escrevi algo fora do contexto, mas com esta tempestade que faz agora , com relâmpagos e trovões as goteiras se espalham por toda casa. Parece até o fim do Mundo.Eu estou aqui sentado escrevendo na mesa e não me levanto até não concluir, porque quero colocar a carta no correio ainda hoje e não quero perder a oportunidade.
Despeço-me com uma reverência, declarando-me humilde servo e confrade.
Padre Antonio Seganfreddo
Uma distinta saudação ao Reverendíssimo padre Antonio Serraglia e ao padre Francisco Brescianini.
Memento Mei
observações
Memento Mei- lembra-te de mim
réis-dinheiro- unidade monetária utilizada no Brasil até o ano de 1942.
Turvo- atual Protásio Alves
Intendente- um administrador da Colônia, pessoa encarregada de fazer o intermédio entre os agricultores e o Estado, posteriormente pode-se dizer Prefeito
Campos de Vacaria e Lagoa Vermelha- o padre Antonio visitava também os campos de criadores de gado, cavalos e ovelhas, geralmente fazendeiros luso brasileiros
-alguns termos usados como “o padre velho” -não sei a quem se referia, Mateo Pasqualli não porque faleceu em 1906.. seria ele o velho padre? mas estava doente.. então não sei dizer
-em 25 de abril de 1908 foi a Porto Alegre e fez uma cirurgia, provavelmente na Santa Casa de Misericórdia. Escreve Redovino Rizzardo que “ nos dias que antecederam a cirurgia dedicou-se inteiramente aos imigrantes italianos em Porto Alegre, que estavam totalmente abandonados.
Também escreve Redovino Rizzardo que em 1910 deixou a Paróquia de Capoeiras nas mãos do padre Carlos Porrini e em 1911 voltou para a Itália para se tratar.Em março de 1912 voltou para o Rio Grande do Sul, foi mandado atender a comunidade de Farroupilha mas faleceu em dezembro de 1912. em Porto Alegre na mesma Santa Casa de Misericórdia.
Segundo Alessandro Seganfreddo na Itália ele se hospedou na mesma casa da qual saíram para emigrar, na casa do irmão Luigi.
Dali deduzimos que ele não conseguiu o dinheiro para a viagem em 1908, e também que morreu sem comemorar o Jubileu da Congregação.
Depois da morte de Giovanni Battista Scalabrini lê-se no livro Raízes de um Povo de Redovino Rizzardo que a Congregação passou por um processo de reestruturação, ficou assim meio que “ao Deus dará”!.
Sobre os indígenas que apareceram na cidade fugindo se suas terras e pedindo comida não resta dúvida, provavelmente uma parcialidade de Kaingangs foram buscar socorro, provavelmente estavam passando fome. Como sabemos as mulheres e crianças ainda passam vendendo artesanato, pedindo alguma roupa, até nos tempos de hoje. Infelizmente, quem era o dono de toda esta terra em torno do ano 1850 já estavam todos mantidos em suas reservas-que foram determinadas pelos governos- e quando os imigrantes italianos chegaram pouco ou nenhum contato tiveram com os indígenas.
A meu juízo como o padre Antonio Seganfreddo foi o segundo missionário scalabriniano a chegar na missão de Alfredo Chaves viveu os anos da propria miserabilidade, da miserabilidade dos colonos, dos parentes, de todos, então ele se sentia diminuído justamente porque não conseguia cobrar as devidas taxas aos colonos pobres. Foi tão injustiçado que até hoje não sabemos onde foi sepultado.
A carta como trata de muitos assuntos parece um tanto confusa ainda mais que ele estava doente e escrevendo à luz de velas.
Outras observações estão em aberto. Esta carta é um lamento.
Melhoria da visibilidade das cartas manuscritas: Fernanda do Canto
Fontes de pesquisa: Arquivo dos padres Scalabrinianos em Roma
Raízes de um Povo de Redovino Rizzardo-bispo de Dourados-em memória
Nova Bassano -das origens ao raiar do século XX-Laurindo Guizzardi -em memória
Pesquisas de Laurindo Guizzardi- bispo emérito de Foz do Iguaçu- em memória
História Oral de parentes Brasil.Itália